Jovens desafiam o câncer
A adolescência já pode ser complicada na melhor das circunstâncias, mas quando o câncer invade a vida de um adolescente, os desafios crescem de forma exponencial. Quando as perspectivas de tratamento são incertas, existe o medo de morrer jovem. Mesmo com uma chance excelente de ser curado, adolescentes com câncer enfrentam uma enormidade de preocupações emocionais, educacionais e sociais, principalmente a de faltar a atividades e perder amigos que não conseguem lidar com o câncer em alguém da mesma idade.
Além disso, existem os desafios de tentar ficar em dia com a lição de casa mesmo quando o tratamento contra o câncer rouba tempo e energia, podendo resultar em efeitos colaterais físicos, cognitivos e psicológicos de longo prazo. Sophie, que pediu para não ter o sobrenome divulgado, soube aos 15 anos que tinha osteossarcoma, câncer ósseo. Após um período de dor questionando como aquilo poderia estar acontecendo, ela fez planos, se determinou a permanecer em sua famosa escola de ensino médio em Nova York e se formar com os colegas.
Embora a maior parte do segundo ano tenha sido passada no hospital em meio a cirurgias e sessões cansativas de quimioterapia, ela foi à escola de muletas sempre que possível. Sophie deu um jeito de não perder o fio da meada e tirou notas suficientemente altas para entrar na Universidade Cornell. Agora, com 20 anos, ela está prestes a iniciar o ano como caloura universitária, em biologia e genética, além de ciências da computação. Ela pretende ir à faculdade de medicina,, então passou os últimos meses estudando para provas e sendo voluntária num hospital. Sua maior preocupação agora é ser conhecida como uma pessoa normal, não alguém que teve câncer, sendo esse o motivo para não ter o nome completo divulgado.
— Sou bastante saudável e não quero que me considerem fraca, necessitando de cuidados especiais — ela afirmou durante entrevista.
— Ter câncer coloca outras questões em perspectiva — ela acrescentou. — Eu sinto que tenho de fazer o máximo possível. Eu me envolvi em muita coisa. Tento me curtir mais. E não lamento um só minuto a forma na qual estou gastando meu tempo —
A determinação de Sophie em fazer o máximo que pode e o seu desejo por uma vida normal estão longe de serem incomuns, afirmou a Dra. Aura Kuperberg, diretora de um programa extraordinário para adolescentes com câncer e seus familiares no Children's Hospital Los Angeles, chamado Impacto Adolescente. Com doutorado em assistência social, Kuperberg começou o programa em 1988. Ele funciona com a ajuda de donativos e subsídios, merecendo ser reproduzido em hospitais do mundo inteiro.
— O maior desafio enfrentado por adolescentes com câncer é o isolamento social — ela declarou durante entrevista.
— Muitos de seus colegas ficam incomodados com a doença, e muitos adolescentes com câncer podem se afastar dos amigos porque se sentem muito diferentes, não pertencendo mais ao grupo —
No popular romance para jovens adultos "A Culpa é das Estrelas", uma adolescente num estágio avançado de câncer diz "que aquela às vezes era a pior parte de ter câncer: a evidência física da doença o separa das outras pessoas". Kuperberg contou que os adolescentes também podem se sentir isolados dentro da família.
— Pais e pacientes querem proteger uns aos outros. Eles criam uma fachada de que tudo ficará bem, sem exprimir os sentimentos de depressão e ansiedade —
Adolescente realiza sessões de terapia em grupo para pacientes jovens, pais e irmãos para que eles "não se sintam sozinhos e percebam que seus sentimentos são normais". A meta do programa, que também patrocina atividades sociais, é ajudar os jovens com câncer — alguns em tratamento, outros curados — a viver do modo mais normal possível.
— Para muitos, o câncer é uma doença crônica, que dura por um longo tempo após o fim do tratamento — disse Kuperberg. — Existem efeitos colaterais emocionais, uma sensação de vulnerabilidade, medo da reincidência e da morte, além de uma incerteza em relação ao futuro que pode prejudicar a realização de esperanças e sonhos. E também podem existir efeitos colaterais físicos e cognitivos quando o tratamento deixa para trás limitações físicas e dificuldades de aprendizado —
Porém, também é comum haver um crescimento pós-traumático que motiva os adolescentes de uma maneira muito positiva. Existe muito altruísmo, um desejo de retribuir, e empatia, a sensibilidade pelo que os outros estão passando e o desejo de ajudar.
— Sophie, por exemplo, fazia anotações no caderno para uma colega de classe com perda auditiva causada pela quimioterapia. Ela se lembra da gratidão pela amiga que a apoiou o tempo todo em que ela fez tratamento, que ia a ver depois da escola e sentava no sofá, fazendo quebra-cabeça enquanto ela dormia. Um efeito colateral frequente do tratamento contra o câncer que agora está recebendo maior atenção é a ameaça potencial ao futuro reprodutivo do paciente jovem. Em parecer divulgado em agosto, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas pediu que médicos falassem dos efeitos do tratamento contra o câncer na puberdade, função ovariana, menstruação, sexualidade, escolha de contraceptivo, mamografia, exame Papanicolau e fertilidade.
— Com a taxa de sobrevivência bastante alta agora nos casos de câncer infantil, nós deveríamos fazer o que estiver ao nosso alcance para preservar a fertilidade futura — disse a Dra. Julie Strickland, diretora do comitê sobre saúde adolescente da entidade.
— Estamos vendo uma cooperação maior entre oncologistas e ginecologistas no sentido de planejar a preservação da fertilidade antes de começar o tratamento para o câncer —
O comitê sugeriu que, quando apropriado, pacientes jovens fossem encaminhados a um especialista em reprodução, que pode explorar a "ampla gama de opções reprodutivas", incluindo o congelamento de óvulos e embriões. Para meninos que já passaram pela puberdade, há muito tempo é possível congelar esperma antes do tratamento de câncer. Embora pacientes mulheres possam relutar em adiar o tratamento, ainda que por um mês, para facilitar a preservação da fertilidade, no mínimo elas deveriam conhecer a opção, afirmou Strickland durante entrevista. Ela descreveu possibilidades promissoras ainda que experimentais, como congelar parte ou todo o ovário e reimplantá-lo quando terminar o tratamento. Já é possível tirar os ovários do caminho no caso de garotas que precisam de radiação pélvica.